junho 12, 2009

Perseguida

Eu odeio me sentir perseguida, odeio sentir os olhares em minha volta. Hoje odiei ser olhada por cada olho que me observou, por todos.
Estava há um mês desejando loucamente ler Lolita. Hoje consegui uma brecha nessa vida para ir comprar. Comprei os três livros que procurava ler: Dom Casmurro, Cantiga de Ninar e Lolita.
Eu tenho preferência por uma livraria que tem em pontos distantes da cidade ou no shopping de Varzeano, que é mais próximo. Minha mãe não gosta de lá. Eu posso até gostar, mas não suporto os "Varzeanos", como meu pai muito bem chama. Ao chegar, minha mãe entrou em duas lojas de roupas da moda. Uma para pagar e outra para olhar.
À outros olhos, devo parecer um zumbi. Dentro dessas lojas dificilmente me interesso por algo, por isso fico andando com os ombros caídos e os pés arrastando. Isso na verdade tem um propósito, fazer minha mãe perder a paciência e querer sair de lá.
Chegamos a minha querida livraria, parecia que o ar tinha até mudado. Saí andando para achar Lolita sozinha, mas como sempre não consegui. Fui até uma das atendentes simpáticas com cara de conhecedora de um bom livro e perguntei onde poderia encontrar. Ela abriu um sorriso confuso por ver a minha idade para tal livro e sem pestanejar o colocou em minhas mãos. Perguntei sobre o Dom Casmurro.
De início eu iria levar somente esses dois livros, mas nas prateleiras minha mãe me ofereceu o outro e aceitei a oferta na hora. Mas a minha atendente estava atendendo um casal, preferi não incomodar e procurei outra pessoa. Achei um moço careca, de óculos, que não aparentava estar em seus melhores dias e pedi pelo Cantiga de Ninar; ele achou no computador e logo me entregou, sem fazer nenhum movimento que demonstrasse opinião. Fiquei com os três livros na mão.
Pedi para minha mãe para subir comigo, ver os cds e dvds do andar de cima. Ela subiu, mas sentou em uma das poltronas e me deixou andando por lá. Todos os atendentes da área de filmes estavam ocupados e eu queria realmente achar o filme Lolita. Cheguei num balcão, onde tinha uma moça distraída de cabelos na altura do ombro que me auxiliou a encontrar um vendedor.
Pois bem, ela me mandou um rapaz charmoso, aos meus olhos. Os olhos dele brilharam enquanto pesquisava sobre o filme e me abriu um sorriso sincero quando mexi no cd do Interpol. Então reparei que ele estava com uma camiseta do Franz. Achou o DVD, me entregou e disse que era uma "boa pedida", então saiu.
Mostrei o filme para minha mãe, mas fui sem sucesso e, além do mais, já tinha garantido três bons livros. Fomos para fila do caixa. A primeira parte do pesadelo.
Os caixas estavam cada um com uma pessoa ocupando na fila, então minha mãe e eu nos direcionamos para a moça que tinha a cara de ser a mais ágil. O homem que estava na nossa frente virou-se e me olhou de uma forma tão assustadora; desde o fio mais espetado do meu cabelo até a ponta do meu tênis no chão. Deve ter repetido isso umas três vezes. Eu o olhei curiosa e ele me olhava com um olhar de pressa, de medo.
De um modo como se tivesse descoberto a pior coisa que ele já havia feito na vida. Escondeu o livro de mim, olhou para minha mãe e saiu.
Chegamos ao caixa e tive uma impressão tão estranha daquele homem. A jovem do caixa foi simpática e nos ofereceu o cartão da livraria. Minha mãe aceitou e quem fez nosso cartão foi o rapaz com a camiseta do Franz que ficou com um sorriso envergonhado enquanto eu o olhava escrever.
Pagamos, almoçamos e fomos embora.
No ônibus de volta entrou um homem de terno azul, cabelo lustroso e com fones de ouvido, aparentava em média 30 anos. O ônibus estava cheio e eu encostei próximo à parte do lixo da porta. Ele me olhou do mesmo modo do homem da livraria e tirou um lixo do bolso. Fez a menção de jogá-lo onde eu estava, mas não o fez. Ele me olhou como se sentisse raiva, como se fosse culpada por tudo que deveria estar dando de errado na vida dele.
Pensei por um momento em deixá-lo jogar o lixo, mas desisti ao imaginá-lo se movimentando tão próximo a mim. Quando tive oportunidade, me sentei e liberei o lixo.
Pois então, ele se inclinou ao lixo, e enquanto jogava fora o que precisava, direcionou os olhos pra mim e ficou vermelho de raiva, isso foi evidente.
Fingi que não vi e olhei para fora da janela.
Eles não podem me ler e eu não posso lê-los. De quê adianta me perseguir?